24 de Julho de 2013

Report: opinião

da amsterdã transgressora à GRI subversiva

Por Estevam Pereira*

Amsterdã, para muitos, é a capital da transgressão. Seus coffee shops oferecem uma ampla gama de alucinógenos, entre os quais cannabis, chás de cogumelo e space cakes. No Red Light District, mulheres seminuas se exibem em vitrines no comércio sexual mais explícito do Ocidente. Para outros tantos, a cidade é um dos principais polos culturais da Europa, como atestam os museus Rijks, Van Gogh e Stedelijk, além de diversas galerias de arte e lojas de design.

Mas o governo da Holanda tem trabalhado para que Amsterdã reforce outra de suas facetas: a de centro financeiro mundial. Uma das maneiras de atingir esse objetivo, sem perder a característica transgressora do país, é abrigar a Global Reporting Initiative (GRI), talvez a principal organização no esforço de levar empresas e governos de todo o mundo a adotar princípios de desenvolvimento sustentável.

A GRI propõe um padrão global para que as empresas prestem contas de seu desempenho socioambiental por meio da publicação de relatórios de sustentabilidade. A lógica é que os públicos interessados no desempenho de determinada organização (acionistas, investidores, fornecedores, empregados, mas também clientes, governos, ONGs, concorrentes, entre outros) possam conferir como o negócio lida com seus impactos não exclusivamente financeiros e qual a estratégia de futuro para melhorar a gestão.

Por exemplo: como uma indústria de bebidas usa a água (recurso cada vez mais escasso)? Ou qual a política de uma instituição financeira para financiar grandes empreendimentos ( invariavelmente responsáveis por enormes impactos sociais e ambientais)? Ou ainda quais os planos de uma fabricante de automóveis para enfrentar as mudanças climáticas ou o desafio da mobilidade urbana?

O ponto G da sustentabilidade

A verdade é que a GRI é uma entidade subversiva. Como assim? É que ao propor diretrizes para elaboração de relatórios de sustentabilidade, na verdade, a organização trabalha para transformar a gestão das empresas. Transformar para melhor, pois amplia o foco do negócio para além do desempenho financeiro.

Dentro dessa estratégia subversiva, Amsterdã sediou, em maio passado, a Conferência Global sobre Sustentabilidade e Relato, a quarta promovida pela Global Reporting Initiative, mais uma com apoio do governo holandês e de diversas empresas, entre elas, Natura e Petrobras.

O grande destaque foi o lançamento da quarta geração das diretrizes para elaboração de relatórios de sustentabilidade, a G4. A equipe da Report esteve lá para acompanhar de perto as discussões. Em julho, iniciamos uma série de encontros com nossos clientes e prospects para esclarecer as dúvidas e ajudar na transição do G3 para o G4.

A nova versão traz mudanças importantes, as principais delas descritas abaixo.

Foco no que importa: agora é imprescindível obedecer o princípio da materialidade (o termo não é amigável, mas pode ser facilmente entendido como aquilo que é importante, relevante, crítico, estratégico). Ou seja, as empresas devem relatar e fazer gestão sobre os seus principais impacto, tanto negativos quanto positivos. Por exemplo: uma companhia de óleo e gás divulga em seu relatório quanto gasta e quais os projetos sociais que apoia. Errado! Ou melhor, não material. Ela deveria prioritariamente trazer tópicos como relacionamento com governos, emissões de gases causadores do efeito estufa, derramamentos, temas para lá de materiais no caso de uma petrolífera.

Alinhamento com as informações financeiras: os relatórios de sustentabilidade deverão se alinhar aos relatórios financeiros. Ou seja, todas as subsidiárias, joint-ventures, participações etc que são consideradas na hora de a companhia apresentar seus resultados financeiros também deverão ser consideradas no momento de relatar o desempenho de sustentabilidade.

Fim da percepção de ranking: na antiga versão das diretrizes GRI, as empresas podiam escolher, em função do número de itens e de indicadores, três níveis de relato: A, B e C. Era, portanto, uma classificação quantitativa e não qualitativa. Havia excelentes relatórios C e péssimos relatórios A. No entanto, o mercado passou a interpretar erroneamente tais níveis como um ranking de qualidade e as empresas caíram nessa armadilha. O esforço muitas vezes se concentrava em atingir o A e não em fazer um bom relatório. Com a G4, acabaram-se os níveis A, B C. Agora, os relatos serão de dois tipos: Core e Comprehensive, uma classificação ainda baseada no escopo do conteúdo, mas que não transmite uma percepção de ranqueamento.

Cadeia de fornecedores: a G4 estendeu o relato do desempenho da empresa a seus fornecedores. Primeiro, ao pedir para que a organização identifique em que lugar da cadeia se encontra alguns dos seus impactos. Por exemplo: se a maior parte do consumo de energia se dá nos fornecedores, isso deve ser apontado no relatório. A G4 também incorporou uma série de indicadores específicos como, por exemplo, o número de fornecedores desligados por problemas relacionados a más práticas trabalhistas.

Governança: as empresas deverão deixar ainda mais explícita como se dá a participação da alta liderança da empresa na estratégia e gestão da sustentabilidade na empresa. Além disso, os itens que descrevem o funcionamento da governça corporativa (conjunto de processos, costumes, políticas, leis, regulamentos e instituições que regulam a maneira como uma empresa é dirigida, administrada ou controlada) se tornaram ainda mais desafiadores. A companhia, por exemplo, deverá relatar a política de remuneração dos administradores e dos executivos.

A G4 foi lançada com a promessa de facilitar o processo de relato da sustentabilidade. Isso realmente acontece quando a GRI determina que as empresas se concentrem no relato de seus principais impactos (princípio da materialidade). No entanto, boa parte das organizações se sentirão desafiadas na hora de alinhar o relatório de sustentabilidade ao financeiro, de tratar da cadeia de fornecedores e de descrever a governança corporativa. Mas quem disse que mudar o mundo é tarefa fácil?

*Estevam Pereira é sócio-diretor na Report Sustentabilidade