You are here

6 de February de 2015

Report: ensaio

como conectamos sustentabilidade e cultura

Depois de alguns anos empenhadas em inserir os temas de sustentabilidade no dia a dia da gestão, muitas empresas encontraram um novo obstáculo: como propagar essa consciência na cultura corporativa? Só assim, pode-se imaginar um futuro no qual essas questões deixem de ser atribuição de uma área ou departamento e passem a fazer parte inerente da tomada de decisão.

Por Álvaro Almeida*

Com isso em mente, decidimos investigar como conectar sustentabilidade, especialidade da report, com cultura organizacional. Constatamos que o mundo das relações de trabalho está em plena transformação. Cada vez mais, as pessoas buscam se conectar a organizações que compartilhem da mesma visão de mundo, com indivíduos e profissionais que se reconheçam em seus valores e que almejem propósitos comuns. Simplificando bem: propósitos atraem pessoas que se identificam por valores e comportamentos comuns alinhados à sustentabilidade (assim, esperamos).

Trabalhar, portanto, os valores dos stakeholders de uma empresa, buscando localizar os pontos de convergência aos temas de sustentabilidade se revelou um caminho inovador que, enfim, nos permite conectar o tema aos corações e mentes corporativos. Inovador porque, apesar de bastante comum no mundo dos recursos humanos, a análise de valores é utilizada fundamentalmente para superar gargalos de gestão e engajamento institucional, sem qualquer vínculo com a sustentabilidade.

Como se tornou prática na report, optamos por testar a metodologia em nós mesmos. Para tanto, contamos com a experiência do consultor Bernardo Teixeira Diniz, da Spirit, especialista em planejamento estratégico e instrutor certificado na metodologia dos Sete Níveis de Consciência, desenvolvida pelo britânico Richard Barrett e já aplicada em mais de 4 mil empresas em 50 países. O resultado foi transformador.

Convidamos 88 pessoas, entre funcionários, clientes, fornecedores e diversos tipos de parceiros a responderem quais eram os principais valores e os comportamentos que melhor lhes descreviam; quais os que se enquadravam na report do presente; e quais projetavam a report do futuro. Com esse levantamento, foi possível identificar os pontos de convergência de todo o grupo e dos públicos separadamente, além dos valores limitantes que precisavam ser mitigados. Somado ao estudo de materialidade que realizamos na mesma época, o levantamento de valores e comportamentos nos proporcionou um precioso conteúdo para o nosso planejamento estratégico.

O processo nos permitiu identificar os valores que melhor expressam a cultura da report, portanto, aqueles que unem nossa rede de relacionamentos e que devem pautar nossas práticas e iniciativas (veja abaixo). Ao final, com a colaboração de outro parceiro qualificadíssimo, Vicente Gomes, da consultoria Corall, reafirmamos nosso propósito como organização e construímos nosso mapa estratégico, tudo coerentemente alinhado aos interesses de todos os públicos. Concluímos que, tão importante quanto ter uma ótima ferramenta, como a metodologia dos Sete Níveis de Consciência, é maximizar os benefícios de suas descobertas, alinhando propósito, valores e comportamentos individuais e coletivos e estratégia à perspectiva de sustentabilidade.

 

*Álvaro Almeida é socio fundador da report

 

+ Leia a entrevista com Vicente Gomes, da Corall

 
 
 
 
16 de Outubro de 2014

Report: ensaio

o rally social

Por Diogo Galvão*

                                            

“Peguei uma muda de roupas, meu chapéu de palha, uma câmera fotográfica e fui. Fui sem saber ao certo quem iria encontrar e por onde iria passar. Eram catorze desconhecidos, das mais diversas áreas de formação, unidos pelo mesmo propósito, o de levar saúde e alegria para os Sertões. Sob o céu efervescente do Sertão que tirava nossa sobriedade, e com muita poeira que limitava nossa visão, fomos para o Rally dos Sertões 2014, fazer ações sociais e sustentáveis em cidades de baixíssimo IDH, próximas ao percurso oficial do Rally.

O S.A.S. Brasil, Saúde e Alegria nos Sertões, é a organização responsável por todo esse projeto. Foram seis meses de planejamento, um investimento total de R$ 100 mil, 1.500 pessoas impactadas por nossas ações em quatro cidades. Munidos de três jipes, uma moto e dois containers-consultórios, largamos junto com os competidores, em Goiânia. Ao todo, três mil e duzentos quilômetros rodados, entre os estados de Goiás e Minas Gerais, no período de 10 dias.

Eram três as frentes de ação: saúde, entretenimento e sustentabilidade. Tínhamos um otorrino, um dentista, um oftalmologista e um clínico geral que lideravam os atendimentos à comunidade. Uma equipe multidisciplinar contando com uma artista, um engenheiro, um arquiteto e um internacionalista (eu), entre outros, que desenvolvia diversas atividades educativas e recreativas com as crianças. Por fim, na frente de sustentabilidade, dois arquitetos e eu conversávamos com a comunidade local sobre novas formas, baratas e eficazes, para captar e armazenar a água.

Ipameri, sudeste goiano, com 20 mil habitantes, foi a primeira cidade que visitamos. Ali, pudemos ter uma ideia do que viria pela frente. Pessoas com baixíssimo acesso a atendimento médico, com peles e olhos ressecados, marcados pelo sol do sertão. Pudemos verificar que os reassentados da reforma agrária já possuíam avançado conhecimento sobre reutilização de materiais, captação e armazenamento de água, tendo nós aprendido muito com eles. E a dona Fonseca (personagens inventados, histórias reais), de sessenta e poucos anos, que, por falta de óculos, tinha grande dificuldade para enxergar as letras e assim aprender a ler em suas aulas de alfabetização.

                                                    

Percorremos a serra gaúcha, dirigimos em alta velocidade por estradas de terra, pudermos ver o céu estrelado numa escuridão privilegiada, até chegar em Bonito de Minas, norte de Minas Gerais. Uma ótima prefeitura encontramos por lá. Pessoas humildes, competentes e comprometidas em tirar a cidade da lista dos dez piores IDHs do estado. A cidade parou para nos receber. Com nossa estrutura itinerante, pudemos sentar sob esse céu estrelado para uma sessão de cinema, a primeira de muitos daquela comunidade de 5 mil habitantes.

Foi em Bonito de Minas que, mesmo trazendo felicidade às centenas de crianças, nos sentimos impotentes, impedidos, calados e surdos. Maria, uma criança de 3 anos, que ficará surda se a mãe não a levar para um tratamento no ouvido, que possui altas chances de cura e que é oferecido pelo SUS. Maria já estava para ser atendida em Brasília, porém, sua mãe teve que fugir da cidade, pois sofria ameaças do marido. Em Bonito de Minas, esse tratamento não é possível. A distância, o isolamento, será imperativo na vida de Maria.

Em uma região na qual chove mil litros de água por ano, captar e armazenar essa água é uma necessidade. A comunidade de Bonito de Minas criou mecanismos e desenvolveu tecnologias que estão dando bons resultados para essa questão, que podiam muito bem servir de exemplo para outras prefeituras, de cidades muito maiores e mais ricas.

Partimos de Bonito de Minas com vontade de ficar mais. Em Olhos D’Água, com 5 mil habitantes, sendo que a maioria vivendo na zona rural, não há cinema. Também não há rede de esgotamento sanitário. Pudemos dar um dia especial, fantástico, para a rotina da cidade, que não esperava por nós. Em parceria com a Waves for Water, instalamos um filtro na única escola da cidade, garantindo água potável para as crianças durante o período de 1 ano. Nossos olhos também encheram d’água ao contarmos para Larissa, de apenas treze anos, que ela ficará cega devido a um corte em sua córnea... brincamos, nos embriagamos no mundo fantástico de Larissa.

                                             

Por fim, Conceição do Mato Dentro foi nossa última parada, antes de voltar para a grande cidade de Belo Horizonte, onde participamos da cerimônia de premiação oficial do Rally dos Sertões. Conceição possui 15 mil habitantes, todos impactados pela mineradora existente nas bordas da cidade. Uma comunidade que, apesar de encoberta pelo pó que sobe das atividades de exploração do minério, possui muita energia, o que tornou nossa última ação ainda mais intensa e divertida.

Quatro cidades atendidas, 340 avaliações oftalmológicas, 141 consultas e prescrições de óculos, 112 consultas pediátricas, incluindo 2 pneumonias e 1 dermatose grave; 143 atendimentos com otorrino, 6 lavagens de ouvido e 1 drenagem de abcesso; 21 encaminhamentos para cirurgia. 500 kits odontológicos para ensinar a criançada a escovar os dentes e 800 doses de albendazol (lombrigueiro) dadas pelos super heróis!

Esse é o projeto Rally dos Sertões Social, tudo isso foi o que vivi como um membro do S.A.S Brasil. Triste foi voltar para São Paulo, chegar na cidade mais rica do Brasil, numa noite de domingo, fria e chuvosa, com pessoas na rua, ensopadas, afogadas, congeladas, isoladas, esquecidas.

*Diogo Galvão é coordenador de conhecimento na report

 
 
 
 
5 de Dezembro de 2013

Report: ensaio

essa história de contar histórias...

Por Marcelo Vieira*

Era uma vez... O storytelling está na moda. Isso é bom e ruim ao mesmo tempo. Bom porque faz parte do movimento de valorização da narrativa no ambiente corporativo, que começou com o conceito de memória empresarial, passa pelas narrativas corporativas e deságua em ferramentas que têm chamado bastante atenção, como o próprio storytelling e o gamification.

O lado ruim é que esse barulho, muitas vezes, resulta em uma certa superficialidade, oba-oba e baixa efetividade. A receita para que a novidade converta-se, rapidamente, em só mais um modismo.  Para evitar esses riscos, é preciso refletir mais profundamente. Podemos começar nos situando melhor em relação a esses temas.

Totó, acho que não estamos mais no Kansas

O storytelling - e com ele parte da discussão sobre narrativa - foi apropriado pelo marketing e pela publicidade. Pela própria natureza dessas disciplinas, o compromisso com o pragmatismo gera uma certa diluição: lê-se “O Poder do Mito” (ou se assiste ao documentário) e pensa-se: “Essa parada de narrativa é legal”. Então, com um fiapo de teoria na mão, o próximo passo é ver “as aplicações práticas” disso.  Dessa forma, na maioria das vezes, o storytelling acaba virando uma mistura um tanto superficial de marketing e oficina de criatividade em plataformas trans, cross ou multimídia, repletos de “atividades práticas” e conceitos mal aplicados, perdidos entre as sutilezas da enunciação e do enunciado. Nasce uma estrela? Não, apenas uma metodologia com uma base enfraquecida e que funciona em contextos específicos - o mesmo movimento que dilui, “descomplica”, também despotencializa. Para usarmos melhor esses conceitos, com uma abordagem estratégica e não apenas baseada em peças de sucesso - escolhidas em universo muito maior e cujo real diferencial nem sempre é o storytelling/narrativa-, precisamos abrir mão de parte dessa simplificação e recuperar o que é, de fato, a narrativa e qual o poder dela.

A matéria de que são feitos os sonhos

A narrativa não é a exposição de um assunto, é afirmação de vida, é o modo supremo da experiência de vida[1], ainda que segundo Walter Benjamin[2], tenha seus poderes derivados da morte. Toda a psicanálise é construída a partir do poder da narrativa e tem seu destino ligado a ela: Freud[3] acredita que é por meio da narrativa que se torna possível acessar o subconsciente para a superação de traumas e recalques; Jung[4] aposta na narrativa como veículo de posicionamento do inconsciente individual no inconsciente coletivo; Lacan[5], como bom estruturalista, acredita que o mundo se constrói de linguagem e a narrativa é o instrumento linguístico capaz de articular real, imaginário e simbólico. O Self, isto é, quem somos e como chegamos a sê-lo – seja em Freud, Lacan, Winnicot ou Reich- se constitui a partir das narrativas individuais e sociais. E é partir dessas últimas que a narrativa se articula com as visões mais amplas, inclusive a sustentabilidade.

Nós que aqui estamos por vós esperamos

Para a antropologia, a narrativa não é somente uma forma do discurso, mas uma prática social estruturadora. A narrativa traz ao imaginário coletivo mitos fundadores e civilizadores, que definem valores – e por que não missões e visões – de um grupo. O mito-narrativa catalisa, articula e redireciona as energias, isto é, produz identidades que, por sua vez, constituem culturas. A sustentabilidade, como outras visões que atravessam a nossa sociedade, não se estabelece enquanto consistir somente em discurso ou mesmo prática. É necessário que se constitua em cultura que oriente esses discursos e práticas. No entanto, isso não se faz de forma a tal bala mágica ou agulha hipodérmica da comunicação funcionalista. A cultura nasce da aceitação e da identificação das pessoas com as narrativas que lhes são propostas.

A vida é como uma caixa de bombons

Histórias de pessoas, coisas e ideias são, portanto, a chave que nos possibilita participar da dinâmica da construção da identidade e da cultura do grupo. No caso específico da sustentabilidade, a influência do storytelling – como ele é compreendido pelos marqueteiros- pode nos levar a hipervalorizar a “criação” de histórias.

Para uma abordagem mais voltada à mudança cultural e de comportamento, parece, no entanto, mais adequado “reconhecer” as histórias que já estão lá na vida e na prática das pessoas, isto é, precisamos mais da reportagem, às vezes apelidada de jornalismo literário, do que da criação publicitária. Aí deve estar a atenção das empresas preocupadas mais em mudar a forma como se faz negócios do que, meramente, vender um produto ou outro: reconhecer as narrativas das pessoas e dos grupos, encontrar nelas identidade com os conceitos de sustentabilidade (ou outros que queiramos trabalhar) e oferecer essas histórias de volta.

Que a força esteja conosco

Compreender a narrativa para usar e ao mesmo tempo ultrapassar o storytelling como ferramenta consultiva e de produção de conteúdo, articulando-a com os aspectos estratégicos por meio de planejamento. Talvez seja essa, em suma, a mais relevante função do storytelling e da narrativa no ambiente corporativo.

E fazer isso com a profundidade necessária, sem recair na pirotecnia marqueteira ou no hermetismo acadêmico. Nada fácil, definitivamente, mas bem melhor que do que deixar o conceito no entrelugar entre a prática excessiva e a teoria inofensiva, na eterna indefinição entre o ser e o não ser, que, como em Hamlet, só pode acabar de um jeito: em eterno silêncio...

*Marcelo Vieira é consultor de conteúdo na report

 

+ Referências:

[1] SEVCENKO, Nicolau. No princípio era o ritmo: as raízes xamânicas da narrativa. In:RIEDEL, Dirce Côrtes (org.). Narrativa: ficção e história. Rio de Janeiro: Imago, 1998.)

[2] BENJAMIN, Walter. O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. (1936). In: _________. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras Escolhidas, volume 1. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. SP: Ed. Brasiliense, 1985. p. 197-221.

[3] Aqui eu penso na teoria freudiana da memória, especialmente, em FREUD, Sigmund. Carta 52. Obras completas, ESB, v. I. Rio de Janeiro: Imago (1896/1974); e na relação entre verdade histórica e verdade narrativa em  _________. História de uma neurose infantil. Obras completas, ESB, v. XVII. Rio de Janeiro: Imago (1918/1974). 

[4] Especialmente em JUNG, Carl Gustav. Arquétipos e inconsciente coletivo. Coleção: Obras completas de Carl Gustav Jung, volume 9. Rio de Janeiro, Editora Vozes, 2011.

[5] Especialmente em LACAN, Jacques. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. Escritos.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar, (1953/1998). O Self, isto é, quem somos e como chegamos a sê-lo – seja em Freud, Lacan, Winnicot ou Reich- se constitui a partir das narrativas individuais e sociais. E é partir dessas últimas que a narrativa se articula com as visões mais amplas, inclusive a sustentabilidade.

 

 
 
 
 
4 de Dezembro de 2013

Report: ensaio

relatórios corporativos e transmidiação: dá pra combinar?

Por Guto Lobato* 

Leitores, produtores e algumas empresas costumam olhar com certo ceticismo para relatórios de sustentabilidade. Eles parecem estar por aí para prestar contas, mais ou menos como uma demonstração financeira, e só interessar a especialistas ou pessoas diretamente influenciadas pelas atividades de uma organização. Nessa ótica, seriam documentos desinteressantes, pouco amigáveis, difíceis de usar. Essa percepção negativa, no entanto, nem sempre está ligada ao conteúdo, e sim à forma com que as narrativas empresariais são apresentadas. Ou seja: às mídias utilizadas para contá-las e divulgá-las aos seus públicos. Como entender esse universo midiático e extrair dele o melhor?

 

A busca por múltiplos suportes pra contar histórias não é invenção das tecnologias digitais. Pelo contrário: existe desde que o homem é homem. Desde quando narrava suas aventuras pela língua ou pela pintura rupestre até o acesso fascinante ao arquivo das redes, o indivíduo é uma máquina de inventar formas de comunicação que o permitam eternizar saberes, fazê-los circular no tempo. E, ao criá-las, o homem que narra desenha novas molduras para as histórias – acaba recriando-as. 

Em um ensaio célebre, o filósofo Walter Benjamin diz que a narrativa “não está interessada em transmitir o ‘puro em si’ da coisa narrada como uma informação ou um relatório. Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele”. Assim, torna-se possível imprimir “na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso”.

Vale pensar o quanto essas ideias podem ser úteis. Para Benjamin, narrar é transmitir experiências, mas é também imprimir marca “pessoal” às histórias. Eis o papel da forma de contar sobre o conteúdo: o de recontá-lo, personalizá-lo. E, se não temos o sábio pensador cercado de ouvintes a que o filósofo faz referência, e sim uma empresa que precisa se comunicar efetivamente com milhares, milhões de pessoas (clientes, fornecedores, comunidades, governos, ONGs...), a questão é ainda mais relevante. É preciso saber atrair sua atenção de diversas maneiras. Fazê-los interagir com a informação que lhes é apresentada, ano após ano, tabela após tabela.

O ritmo do mercado tende a lançar no mundo corporativo uma pressão que se reflete em seus balanços de desempenho. Construídos – muitas vezes a jato – com cuidado e investimento técnico, relatórios de sustentabilidade podem ser precisos e detalhados, dizer o que é necessário, se destacar pelo uso criativo do design e por apostar em múltiplas plataformas – portais, vídeos, aplicativos, blogs, versões resumidas e outros.

Essa tal transmidiação

Em tempos de informação segmentada e de públicos cada vez mais exigentes e disputados, cabe repensar o estatuto do multimídia, essa commodity da vida moderna, e incorporar a transmidiação – ou seja, o uso das plataformas de maneira interconectada, gerando textos que conversam entre si e, assim, ganham sentido pleno.

Muito usado nos estudos de ficção, na publicidade e nos debates sobre redes digitais, o termo transmídia é atribuído a Henry Jenkins, professor de Jornalismo, Comunicação e Cinema da Universidade do Sul da Califórnia. Na obra “Cultura da convergência”, o autor liga esse conceito a “um novo modelo que surgiu em resposta à convergência de mídias, captando as exigências dos consumidores e dependendo da participação ativa das comunidades de conhecimento.”

A narrativa transmidiática, diz Jenkins, “é a arte da criação de um universo” que se conecta em constante referência, contando com o engajamento direto do público. É mais que o multimídia (narrativas contadas em vários suportes), que o crossmídia (histórias em diferentes mídias que atuam de maneira autossuficiente). Na transmidiação, uma trama literária pode se expandir para os quadrinhos, para o cinema e para a web com histórias independentes – mas elas são essenciais para entender o todo, a “grande narrativa” que se forma desses pedaços.

Entre os exemplos recentes, destacam-se séries (que se expandem para HQs, web séries etc.), telenovelas (com seus sites, clipes e redes sociais fictícias) e campanhas publicitárias. Muitos alertam, porém, que esse é um fenômeno antigo. “A narrativa pode ser transmídia muito antes da existência dos meios de comunicação modernos”, disse Carlos Scolari, pesquisador da área e professor da Universitat Pompeu Fabra (Barcelona), em um seminário promovido na USP/SP, em novembro. Um bom exemplo é a obra literária “Dom Quixote”, que passou pela transmidiação ao longo dos séculos, gerando óperas, filmes, telefilmes, quadrinhos e teatro com desdobramentos próprios.

Não é difícil entender as possibilidades que isso traz para a construção de relatórios de sustentabilidade mais interessantes. O conceito de um produto único, hermeticamente fechado – o PDF, o relatório impresso, o site – parece coisa do passado, ainda mais levando em conta o que a transmidiação pode trazer à comunicação das empresas com seus públicos. Conteúdos expandidos, links, referências a outras fontes de consulta, entrevistas, espaços online abertos a comentários, opiniões e interações podem permitir a produção de relatórios que, mais que “de consulta”, se tornem criações dinâmicas, abertas à participação de stakeholders.

As tentativas nesse rumo ainda são raras; tome-se como bons casos a Vodafone, cujo relatório trabalha bem a linguagem crossmídia, com cases, vídeos e conteúdo expandido, ou a Natura, que tem inserido a opinião de especialistas externos em seu relatório anual e publicado informações de desempenho socioambiental trimestralmente, em um site adaptativo. Mas provam que o relato socioambiental, apesar de técnico e por vezes exaustivo em seu conteúdo, pode ser formatado de modo a instigar leitores e construir narrativas e sentidos particulares – o que é ainda mais relevante no campo da sustentabilidade, que nos exige um olhar mais sistêmico, aberto a conexões, redescobertas e diálogos transdisciplinares.

+ Leia sobre:

Narrativa: Benjamin, Walter. O narrador. In: Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1996.

Transmídia e cultura da convergência: Jenkins, Henry. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2006.

Pesquisas de comunicação corporativa: http://www.aberje.com.br/acervo_pesquisas.asp

Transmidiação em “Dom Quixote”: http://blog.educalab.es/cniie/2013/10/14/el-quijote-narracion-transmedia/

 

*Guto Lobato é consultor de conteúdo na report

 
 
 
 
26 de Novembro de 2013

Report: ensaio

em matéria de reporte...

por Victor Netto*

Enquanto a Report Sustentabilidade prepara seu segundo estudo de materialidade (leia o primeiro aqui), aconteceu em Istanbul o lançamento do estudo Reporting Matters: improving the effectiveness of reporting, realizado pela World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) - que também anunciou seu novo Chairman do Comitê Executivo, Paul Polman.

A publicação faz uma análise de 175 relatórios publicados por empresas filiadas à instituição, trazendo achados sobre o padrão de relato, exemplos de respostas e recomendações sobre como evoluir. Esse é o primeiro estudo internacional que tenha tamanha abrangência (20 setores e 30 países) ao tratar como as empresas têm conduzido seus processos de materialidade. No entanto, outras dimensões também são analisadas, como engajamento, governança, estratégia, desempenho, metas etc.

Antes de comentar mais sobre o estudo, podemos observar que há um movimento entre os líderes da sustentabilidade. A WBCSD tem direcionado seus esforços à sua principal bandeira, o programa Action 2020, que tenta antecipar objetivos relacionados à Visão 2050, agenda produzida por 29 empresas-membro da organização, em 2009. A iniciativa também se alinha aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), que deverão substituir os Objetivos do Milênio da ONU a partir de 2015. A organização também se uniu à GRI e à Global Compact para fundar uma plataforma de engajamento chamada “Arquitetos de um mundo melhor”, que busca potencializar as ações do setor privado.

Essas coalizões globais servem como base para avaliar o atual estágio das organizações na sustentabilidade e orientar possibilidades. Como a maior parte dessas instituições possuem braços locais (Pacto Global, CEBDS e Ponto Focal GRI são exemplos no país), podemos esperar ações locais também.

O estudo Reporting Matters se situa nessa avaliação do relato das empresas, tendo em vista os desafios apontados em documentos como: o novo guia de diretrizes da GRI, a G4; o modelo de relato integrado, produzido pelo IIRC; e também o lançamento do Conceptual Framework, pelo Sustainability Accounting Standards Board (SASB) - a organização está desenvolvendo orientações para inclusão de conteúdos de sustentabilidade nos documentos obrigatórios da Securities and Exchange Commission (SEC).

Este cenário tem preparado o caminho pós-2015, quando se espera que as empresas já tenham consolidado em seu modelo de negócio conceitos-chave (como materialidade e integração), para atuarem frente às agudas transformações sociais e ambientais previstas pelos estudiosos.

Raio-x dos relatórios

Entre os achados do estudo foi verificado que os relatórios possuem uma média de 98 páginas (sendo o maior deles com assustadoras 780 páginas) e não havendo muita correlação entre o uso da materialidade para relatórios mais concisos. Também é diagnosticado, embora qualquer interessado no tema pudesse prever, que apenas 12% das companhias apresentam os temas ambientais, sociais e de governança junto a seus relatórios anuais, além de outras 8% que denominam seus reportes como “relatórios integrados”. Contudo, é válido o esforço destas 20%, uma vez que ‘largam a frente’ daquelas que ainda colocam os relatórios de sustentabilidade à margem das atividades estratégicas da empresa.

Um fato relevante é que estas empresas, segundo o estudo da WBCSD, tendem a publicar seus relatórios entre 1 e 3 meses após o período do relato, enquanto o restante (que não se compromete com a sincronia das informações financeiras) tende a publicar em aproximadamente 6 meses após o fim do relato. Isso reforça o apontamento feito por Steve Waygood, Executivo de Investimento Responsável da Aviva Investors durante a Conferência da GRI deste ano, sobre a necessidade de alimentar bases de dados para trazer o pensamento integrado: “se não há informações integradas que, ao menos, estejam sincronizadas”.

É interessante conferir as diferentes dimensões que o estudo aborda. Ao analisar o relato de tendências e prospecções, por exemplo, o estudo conclui que este tipo de narrativa, em geral, é genérico e não esclarece a estratégia das companhias. Com relação às dimensões abrangência e balanceamento (entre assuntos positivos e negativos), o estudo destaca as brasileiras Fibria e Vale, respectivamente, como exemplos de bons relatos nos quesitos. Vale leitura!

*Victor Netto é consultor de sustentabilidade na report

 
 
 
 
11 de Novembro de 2013

Report: ensaio

infográficos e diagramas: informação visual

Por Guilherme Falcão, Gustavo Inafuku e Fernando Rocha*

Foi no ano de 1976 que Richard Saul Wurman, arquiteto e designer gráfico, cunhou o termo “arquitetura da informação”. Segundo Wurman, “a explosão de informações” da sociedade contemporânea exigia “uma série de sistemas, um design sistêmico”. No entanto, há quem diga que essa obsessão em encontrar maneiras de organizar informações complexas de maneira a tornar clara sua compreensão, sobretudo com o uso de recursos visuais, acompanha a humanidade desde antes do mundo eletrônico ou digital. 

Lançado em 2012, o livro 100 Diagrams That Changed The World (100 diagramas que mudaram o mundo), resgata exemplos de toda a história de nossa civilização. Estão lá a Pedra de Rosetta, diagramas árabes de eclipses lunares dos idos de 1019 (veja a imagem abaixo), o Homem de Vitrúvio, e até esquemas de CPU dos primeiros modelos Intel, direto da década de 70.

Ao longo dos últimos 10 anos temos visto a arquitetura de informação fazer cada vez mais parte de nosso cotidiano. Seja em plataformas online ou impressas, tais representações deixaram de ser privilégio de publicações de ciência ou economia. Há um número cada vez maior de diagramas, esquemas e infográficos se propondo a explicar de maneira simples fatos como a crise financeira global, o funcionamento da deep web, ou o recente escândalo de espionagens do governo dos EUA.

Essa obsessão contemporânea pelos dados visuais foi chamada por alguns de infoporn (termo combinando “informação” com “pornografia”, aludindo ao prazer obsessivo de olhar e produzir). Um dos exemplos mais notórios é o do designer norte-americano Nicholas Felton, que desde o ano de 2005 publica um relatório anual sobre sua própria vida (veja a imagem abaixo). Hábitos de lazer, escolhas de vestuário e localidades visitadas estão entre alguns dos dados que Felton compila anualmente, publica e vende em seu próprio website.

  

Mas, para além do apelo estético, a visualização de dados é uma ferramenta que busca facilitar o entendimento da análise de dados. Um exemplo histórico é o da inglesa Florence Nightingale, enfermeira que trabalhou nos hospitais de campanha da guerra da Crimeia. Ao voltar para a Inglaterra dos anos 1857, ela publicou um engenhoso diagrama (veja a imagem abaixo) onde demonstrava - visualmente - a causa das mortes durante o conflito, demonstrando claramente o crescimento exponencial de fatalidades causadas por má higiene e como esses números superavam - e muito - as perdas durante o combate. Seu relatório foi determinante pra mudança das políticas de higiene nos hospitais ingleses e iniciou a reforma do sistema hospitalar no mundo todo. 

Não por acaso, grandes empresas passam a enxergar o potencial da arquitetura de informação. Desde 2009, a GE mantem um blog sobre o assunto, explorando os dados coletados na manufatura e utilização de seus produtos. O resultado (veja a imagem abaixo), além de tornar públicas as informações acumuladas, é uma forma de a organização gerar maior autoconhecimento e agir com transparência, traçando seus planos estratégicos e tornando-os acessíveis publicamente.

 

*Guilherme Falcão, Gustavo Inafuku e Fernando Rocha são designers na Report Sustentabilidade

 
 
 
 
7 de Outubro de 2013

Report: ensaio

uma reflexão sobre as soluções

Por Cássio Trunkl*

Foi lançado na semana passada mais um vídeo do projeto The Story of Stuff, chamado de The Story of Solutions - "A história das soluções". Circulando na internet com mais de 75 mil acessos, o vídeo começa afirmando que a tecnologia que temos disponível hoje só existe porque muitos problemas que eram insuperáveis anos atrás já tiveram solução.

A crítica presente no vídeo (que aliás, é a especialidade dos criadores do projeto) recai sobre o foco das atuais soluções, que tem sido mais ligadas às vias que levam a um maior consumismo do àquelas comprometidas em superar desafios ligados a produtos e formas de produção mais seguras, saudáveis e justas. Uma explicação pode estar associada a uma discussão já levantada no Brasil há certo tempo pelo professor José Eli da Veiga - IRI/USP e IPÊ, autor de mais de 20 livros sobre temas relacionados à economia e sustentabilidade -, que questiona a metodologia de cálculo do PIB, onde quanto mais produção, maior o consumo e maior a riqueza (leia o artigo publicado no Valor, aqui).

A proposta do vídeo é refletir sobre termos como o “melhor” x “mais”. Isso lembra outra discussão também razoavelmente antiga, de crescimento econômico x desenvolvimento econômico. O vídeo mostra a diferença ao ilustrar o caso mundial da substituição das sacolinhas plásticas. Em um cenário apresentado, a medida não gera impacto positivo e, em outro, o impacto é benéfico e há mudança de mentalidade. O melhor, claro, fica para o final, com o comentário que afirma: é hora de construirmos as soluções! Então, sem mais delongas, assista o vídeo abaixo:

 

*Cássio Trunkl é gerente financeiro na Report Sustentabilidade

 
 
 
 
1 de Outubro de 2013

Report: ensaio

revistas e plataformas dão voz à sustentabilidade

Por Gustavo Inafuku e Fernando Rocha*

Quem trabalha com sustentabilidade sabe que a responsabilidade corporativa vai muito além de questões ambientais, com diversos tópicos sobre impactos sociais e econômicos. Mas, até pouco tempo, sustentabilidade era para a grande maioria sinônimo de ecologia. Ou – pior ainda – uma febre do momento, em que empresas desenvolviam ações completamente desvinculadas de seus negócios para passar uma percepção de “fachada verde” – o famoso greenwash

Aos poucos, por conta de fatores como crises econômicas e o avanço da comunicação em rede, o assunto ganhou contornos menos nebulosos – hoje, tem adeptos em diversos setores da sociedade, para além dos campos corporativo e científico.

Não por acaso, plataformas e publicações que discutem aspectos de sustentabilidade têm crescido e se consolidado, levando os temas para perto do grande público.

Colors magazine

http://www.colorsmagazine.com

Iniciativa da dupla Oliviero Toscani e Tibor Kalman, planejada no início da década de 1990 na Fabrica (braço de pesquisa em comunicação do Benetton Group), a “revista sobre o resto do mundo” dedica cada edição à exploração de um tema: já foram abordados AIDS (quando ainda era um forte tabu), Religião, Guerras, Sexualidade, Pobreza, Mudanças Climáticas e Consumo. Sempre com um olhar globalizado, a revista é publicada em diversos idiomas, entre eles português, chinês e italiano.

Ao longo dos anos, o objetivo da publicação permaneceu o mesmo: expor assuntos muitos vezes ignorados pela mídia tradicional, com forte apelo gráfico. Tibor Kalman, idealizador e diretor de arte nos primeiros cinco anos, descreveu a revista como “uma mistura psicodélica da LIFE e National Geographic para a geração MTV (o que quer seja isso)”. 

 

Além da revista, a COLORS também produz livros e documentários premiados, como “Rocinha” (sobre a favela carioca) e “Aral”, no qual acompanham a última geração de pescadores desse grande lago do Cazaquistão que tem diminuído drasticamente desde os anos 1960, quando grandes projetos de irrigação da antiga união soviética desviaram rios que desembocavam no que já foi um dos maiores lagos do planeta.

GOOD

http://www.good.is/

Autodefinida como “uma comunidade de pessoas que se importam”, a iniciativa toma a forma de uma rede social online, uma publicação impressa e um aglutinador de empreendedores. Pelo canal virtual, os participantes compartilham ideias e experiências relevantes para a criação de novas mentalidades focadas no progresso individual e coletivo.

 

Fast Company

Com foco inicial no mundo corporativo, a revista ampliou seu raio de alcance por meio de seu website, que fala sobre inovação nos negócios, no design, na tecnologia, nas comunicações e no modo de vida contemporâneo. O que a distancia da maioria das publicações de negócios é o fato de buscar experiências transformadoras da cultura corporativa, com destaque para práticas que impulsionem a melhoria da qualidade de vida das pessoas.

Para além dos exemplos citados aqui – publicações de circulação global, que são negócios já bastante estruturados –, outras iniciativas apontam para o amadurecimento de temas de sustentabilidade no mercado editorial e nas plataformas de comunicação. Comunidades online, o ativismo virtual e ferramentas de criação e financiamento colaborativas são um forte indício de que está em curso uma mudança essencial na forma como os indivíduos se relacionam entre si e com o mercado.

O que está claro: essas pessoas querem mais qualidade de vida (o que não significa necessariamente mais dinheiro), mais transparência e a valorização das experiências – ao invés de apenas mais e mais produtos. É a esses significados que a sustentabilidade deve se vincular para não se tornar um jargão empoeirado.

 

*Gustavo Inafuku e Fernando Rocha são designers na report

 

 
 
 
 
9 de Setembro de 2013

Report: ensaio

3º encontro g4 - a dimensão do engajamento demandado pela GRI e pelo mercado

“Materialidade é determinada pela relevância e pela importância de uma questão. Uma questão material irá influenciar as decisões, as ações e o desempenho de uma organização ou de seus stakeholders.” (AA1000, 2011)

Consultar é um passo importante para as organizações. Dar retorno após essas consultas é um grande desafio. Incrementar essa troca para criar um processo de engajamento estratégico e integrado é a meta que as organizações devem visar nesse momento. Nesse sentido, a materialidade, proposta pela G4, pode ser o ponto impulsionador desse processo.

As experiências com o relato de informações financeiras sempre foram observadas nas discussões sobre sustentabilidade. A aproximação do rigor metodológico e da confiabilidade das informações são desafios para as organizações que buscam justificar a importância de gerir temas socioambientais. Construir dados e indicadores consistentes e que realmente subsidiem as tomadas de decisão não é tarefa fácil Por isso, muitos estudos e frameworks que apoiam as organizações nesse sentido tentam adaptar conceitos e ferramentas já conhecidas no “mundo financeiro” ao campo da sustentabilidade.

A norma AA1000, por exemplo, estendeu o conceito de materialidade para nortear sua metodologia de engajamento com públicos de interesse. Neste movimento, a consultoria inglesa AccountAbility resgatou, nas demonstrações financeiras, os critérios para avaliar a magnitude das informações do relatório quando elas são omitidas ou distorcidas.

Com a responsabilidade da materialidade entregue às organizações e stakeholders, a GRI tratou de firmar esse conceito como princípio para definição dos conteúdos dos relatórios de sustentabilidade, encontrando nas demandas das partes interessadas a melhor forma de endereçar temas relevantes. Entendendo que este seria um processo abrangente, a materialidade, até a versão anterior das diretrizes da GRI (3.1), era mandatória apenas para grandes organizações, cuja complexidade para definir temas mais críticos seria maior.

O lançamento da G4, em maio de 2013, apontou a percepção já presente no mundo corporativo: as empresas adquiriram conhecimento sobre materialidade, mas ainda não a realizam de modo consistente e com foco estratégico- a pesquisa Materialidade no Brasil, realizada pela Report Sustentabilidade em 2012, identificou essas dificuldades. Além disso, a G4 também revela preocupações e apostas da GRI no cenário atual. Se, por um lado, temos processos ainda inconsistentes, restritos a consultas pontuais para definição de temas materiais, por outro, existe uma crença de que um processo robusto de materialidade pode fazer convergir temas materiais e estratégicos para as organizações.

A materialidade, como parte de um engajamento com os públicos de interesse, aparece como uma poderosa ferramenta para mapear temas de maiores riscos e oportunidades ao considerar percepções dos stakeholders sobre os impactos das organizações. Uma vez que a G4 também exige (por indicadores e orientações) o envolvimento da alta gestão, retoma-se a expectativa de que os temas importantes para os públicos possam ser “filtrados” e avaliados pelos altos órgãos de governança numa etapa de validação. Concretamente, este é o momento em que são definidas as reais prioridades de gestão das empresas entre os temas levantados, considerando eventual inclusão de novos temas ainda não identificados.

A ênfase na materialidade deve encorajar as organizações a fornecer apenas informações críticas para seus negócios e stakeholders. E, para ir além do relato, as organizações têm a oportunidade de se concentrar em impactos na sustentabilidade que realmente importam.

A materialidade torna-se central para a aderência à G4, mas, além disso, prevalece como uma ferramenta completa na identificação, priorização e definição de temas estratégicos. Faz-se necessário o cuidado metodológico e prático na condução desses processos, de forma que os temas da gestão não se limitem a resultados de curto prazo, dos quais a herança financeira ainda conserva nas organizações da antiga economia.

Veja como foram os demais encontros:

4º encontro g4 - governança: como atender novas exigências para reportar

2º encontro - materialidade: ferramenta central da sustentabilidade 

1º encontro - mapa para o caminho da sustentabilidade

 
 
 
 
9 de Setembro de 2013

Report: ensaio

2º encontro g4 - materialidade: ferramenta central da sustentabilidade

O engajamento de stakeholders, ou partes interessadas, desde a segunda versão das diretrizes GRI, a G2, é citado como fundamental na definição do conteúdo do relatório de sustentabilidade. Na G2, falava-se em engajá-las para definir o conteúdo adicional do relato, mas, independentemente disso, era um princípio que deveria permear todo o processo na busca de uma melhoria contínua.

Com a G3, a terceira geração das diretrizes da GRI, a participação de stakeholders ganhou maior peso ao longo do documento, fortalecendo a necessidade de atender às expectativas dos públicos consultados. Na G4, lançada em maio desse ano, pouca coisa mudou na apresentação do princípio ou em sua conceituação. No entanto, com a materialidade no centro do relato, principal mudança das novas diretrizes, a inclusão as partes interessadas passou a ter uma importância ainda maior.

No passo-a-passo da materialidade sugerida pela GRI, há a indicação sobre onde cada princípio deve ser considerado. O diálogo com os stakeholders deve permear todos os passos desse processo, desde a identificação inicial de temas até a validação pela alta gestão. Neste contexto, podemos perceber como a liderança da organização relatora enxerga as partes interessadas.

Quando uma empresa cria mecanismos de diálogos com seus públicos de interesse, os grupos e os próprios temas que resultam desse relacionamento ganham um espaço diferente dentro da organização. Contudo, se, apesar disso, não houver retorno aos stakeholders, a empresa passa a correr riscos de reputação e pode ser vista como irresponsável em função das expectativas que surgem dessa relação. Logo, cria-se a necessidade de interagir mais constantemente com os públicos de interesse e, com algum esforço, esse diálogo pode se transformar em engajamento.

Processo sistemático e gradual, o engajamento de stakeholders necessita da identificação e de troca constante com grupos ou indivíduos que impactam ou são impactados pelas decisões e atividades da organização. Por meio do relacionamento, busca-se envolvimento, aprendizado mútuo e confiança. São estes elementos que permitem conhecer pontos de vista e percepções dos públicos de interesse sobre a organização e identificar as questões que são importantes para a sociedade em seu contínuo processo de transformação. Diálogo pode ser pontual; engajamento é sistemático e contínuo.

Muitas organizações brasileiras estão acostumadas a consultar seus públicos de interesse diante de questões polêmicas, temas críticos ou mesmo para definir temas para o relato da sustentabilidade. Várias delas querem ouvir o que esses públicos têm a dizer sobre sua atuação, seus impactos e sua influência. Parte dessas empresas leva essas questões em consideração e passa a gerir estes temas internamente. O mais difícil, ainda, é manter um diálogo que seja contínuo e transparente. Isso poucas fazem.

Case: Agenda para engajar e mobilizar

A Alcoa apresentou, em encontro promovido pela Report Sustentabilidade, um case singular de engajamento com uma comunidade específica: Juruti Sustentável.

Em 2006, a empresa procurou o Centro de Estudos em Sustentabilidade (GVces) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) para a construção de uma parceria que apresentasse uma proposta de agenda de desenvolvimento sustentável para o município de Juruti e região, no Extremo Oeste do Estado do Pará. Naquele momento, a Alcoa acabava de ter aprovada a licença de instalação de um empreendimento de mineração de bauxita em Juruti, o que incluía a construção de uma planta de beneficiamento, um porto e uma ferrovia.

A ideia da empresa não era apenas entender as necessidades da comunidade para a realização dos seus investimentos na região e, sim, mobilizar população, governo e sociedade para, juntos, pensarem no desenvolvimento daquele lugar. Tudo com base na Agenda 21, um instrumento fundamental para pensar em planejamento sustentável, e em indicadores da cidade e do entorno, essenciais para o planejamento e avaliação que se pretendem fazer Veja mais em: http://intranet.gvces.com.br/cms/arquivos/juruti_port.pdf

Veja como foram os outros encontros:

4º encontro g4 - governança: como atender novas exigências para reportar

3º encontro - a dimensão do engajamento demandado pela GRI e pelo mercad

1º encontro - mapa para o caminho da sustentabilidade

 
 
 
 

Pages

Subscribe to Blog